quarta-feira, 21 de junho de 2017

Como receber críticas

Eu não gosto de receber críticas. Acho importante, mas não sou masoquista. É muito mais gostoso receber elogios exagerados do que críticas sinceras. Se fosse fazer uma metáfora, seria como comer verduras em vez de encher a cara de brigadeiro. A primeira opção não é a mais agradável, mas é a que te faz mais bem, a longo prazo.
 Para enfrentar essa difícil tarefa, no entanto, existem algumas astúcias. Primeiro, procurar quem vai fazer uma boa crítica. Uma boa crítica, a meu ver, aponta o que precisa ser apontado sem ofender. Escancara para você tudo o que precisa ser mudado no seu trabalho, mas jamais conta suas faltas para os seus amigos em conversas de corredor. Um bom crítico respeita e tem coragem para ser sincero.
Outra astúcia é perceber o nível da crítica. Se você escreveu um texto e as críticas vão desde o nível mais básico, como gramática, clareza ou coesão do texto, tem que ter humildade e estudar mais português. Se as críticas estão no conteúdo, na linha de raciocínio e em aspectos mais literários, veja o lado bom da coisa: escrever você já sabe, só precisa aprimorar a técnica para se tornar um bom escritor.
Não acho que nenhuma crítica deva ser ignorada, mas devemos analisar o tipo de crítica e decidir como nos posicionar diante dela. Tem crítica que é senso comum, técnica, dica publicitária. Tem crítica que tem mais a ver com o posicionamento pessoal de quem criticou. Se eu escrever uma história com personagens homossexuais e meu crítico achar que eu devo tirar isso porque vai contra os valores conservadores, que importância eu vou dar? A importância de saber que meu texto incomoda homofóbicos, o que não é um ponto negativo só porque o meu leitor achou que era.

Por fim, é preciso aprender a lidar com sentimentos. Depois de receber críticas, mesmo que sejam muito bem fundamentadas, pode bater um desânimo e você começar a achar que não nasceu pra isso. Eu acho que todo mundo nasceu pra crescer e aprender. Saber dar um tempo, olhar o texto depois pra reescrever e mesmo dar-se conta de quanta coisa boa recebe críticas pode ajudar a lidar com esse baque inicial. Não acho que ninguém deveria desistir por ele, mas aprender a lidar e seguir em frente. 

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

O sol de Marselha

Depois de publicar duas vezes por editora, resolvi me aventurar na autopublicação.
O livro não tem versão impressa, mas é fácil de adquirir e de ler em computador, kindle, tablet ou outras plataformas.
A principal razão: é mais barato, para mim e para o leitor.
Sei que por trás da publicação em editora tem muito trabalho que precisa ser pago, e que por isso o livro sai mais caro, tendo também custo, mesmo que reduzido, ao autor. Não desprezo a importância do trabalho que é feito. Mas a verdade é que eu não tenho condições de ficar pagando para publicar. O pouco retorno que tenho com os livros ainda tem que ser discutido com a editora quando ela “esquece” de pagar os royalties. Isso antes do livro ser pirateado e distribuído gratuitamente, como também aconteceu.
Então é isso. Livro novo, dessa vez direto na Amazon, sobre as minhas experiências na França:



quinta-feira, 23 de junho de 2016

Novo Livro

É com muito orgulho que compartilho a publicação do meu mais recente livro: Minha empresa precisa incluir. E agora?
O livro aborda as principais dúvidas que surgem quando uma equipe de recursos humanos se vê diante do desafio de contratar pessoas com deficiência. Diante do novo, nada melhor do que um pouco mais de conhecimento para perceber que todos podem se beneficiar desse processo.



O livro está disponível em duas páginas:
A da editora, em que o preço é mais vantajoso, mas exige uma busca por título ou autor até encontrar o livro: www.biblioteca24horas.com.br
A da Amazon, cujo link posso compartilhar diretamente, mas que tem preço mais alto e apenas a versão impressa: https://www.amazon.com/Minha-empresa-precisa-incluir-agora/dp/8541610292/ref=sr_1_3?ie=UTF8&qid=1465977732&sr=8-3&keywords=minha+empresa


quarta-feira, 25 de maio de 2016

O que inspira

Há algum tempo achava a inspiração arredia, impossível de ser convocada. Desde alguns acontecimentos na minha vida, no entanto, descobri algo que me inspira: novidade.  Um livro novo, uma viagem, uma experiência nova, um curso, algo que tire da rotina.
Odeio admitir, mas até novidades ruins me levam a escrever: uma decepção amorosa, uma tragédia, uma insônia melancólica provocada por reflexões incontornáveis. Em maior ou menor escala, as novidades atraem a inspiração.
Caso queira tentar, não precisa ficar esperando que o destino traga algo diferente. Vale a pena provocar também, buscar o que faz a mente sair um pouco do automático, fazer as coisas de um jeito diferente, inesperado. Sei lá, ser criativo.
O filósofo Roger-Pol Droit sugeria, para sair da rotina, correr em um cemitério, telefonar para si mesmo, beber e urinar ao mesmo tempo. Tem muita coisa que a gente pode fazer para que nosso dia seja diferente sem comprometer o que precisa ser igual.

Se não trouxer a inspiração, ainda assim pode ser bem divertido.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A leitura sempre adiada

Quando publiquei meu primeiro livro, muita gente que conheço mostrou entusiasmo, mas poucos o leram. Sabia que isso poderia acontecer, mas não dá pra negar uma certa decepção.
Em muitas ocasiões fiquei me perguntando porque as pessoas não o liam. Com a autocrítica ativada, achava sempre que o problema era eu: sou chata a ponto da pessoa achar que o livro será chato, a pessoa leu e parou, leu, mas não gostou... Enfim, diversas hipóteses autodepreciativas.
Um dia resolvi analisar um pouco mais o perfil de gente que lia e de gente que não não lia e cheguei a uma constatação que não me deixou muito mais feliz: muitas pessoas não leem. Nada. Nem livros, nem revistas, nem jornais, nem artigos de internet. Muitas das pessoas que se mostraram entusiasmadas para ler meu livro e nunca leram são as mesmas que comentam a manchete sem ler a notícia, que vivem dizendo “não li o texto todo, mas acho...” Na maioria dos casos, o problema não era eu.

Meu ego ficou mais tranquilo, mas meu otimismo não.

quarta-feira, 25 de março de 2015

O escritor é importante para a leitura?


Li outro dia uma notícia sobre a manifestação de escritores no salão do livro de Paris com o slogan “sem autores, sem leitores” e fiquei pensando a respeito. Será mesmo que se os escritores contemporâneos deixarem de escrever não haverá mais o que ler?
Por mais que seja bacana ter novas obras no mercado, já foi escrito tanto ao longo dos séculos, que se os escritores deixarem de publicar hoje, ainda terá muita coisa para ler.
Assim, me pergunto: como fazer para o ofício de escritor ser valorizado, se os seus produtos não se perdem no tempo? Como valorizar os novos escritores em um mundo em que existem tantos outros, vivos ou mortos, que fazem a vez quando algum abandona o barco?

sábado, 14 de março de 2015

Mas afinal, o que é falar bem?

A pergunta, assim feita, dá margem a muitas interpretações.
Se uma pessoa sobe no palanque e faz a plateia aplaudir, podemos dizer que ela fala bem. Nesse caso, ela convence, envolve, é carismática. Não importa se usou português culto, não importa nem se foi 100% coerente ou lógica.
Já em uma conferência acadêmica, ser carismático não sustenta uma tese mal construída. Respeitar o método científico e ter cuidado com afirmações mal embasadas é um jeito de falar bem nessa situação. A diferença entre um exemplo e outro é o objetivo, o público, o sentido da comunicação.
Isso também se aplica à escrita. Mas mesmo que o objetivo da escrita seja a transmissão de ideias, quando se pergunta se alguém escreve bem, geralmente vamos encontrar uma resposta um tanto limitada: escrever corretamente.
É verdade que saber usar a norma culta ajuda a dar clareza e compreensão ao texto. Mas não é exatamente ela que faz com que um texto seja bom. Depende muito dos argumentos, do estilo da escrita e – por que não – do público a quem ela é destinada. Então por que toda essa importância atribuída à norma culta?
Não sou linguista, mas ensaio uma resposta: o domínio de um sistema e o hábito linguístico de alguém sinalizam algumas coisas dentro de uma cultura. Pelo jeito que alguém escreve e, em uma escala menor, pelo jeito que alguém fala, identifica-se:
- se a pessoa frequentou a escola
- se teve uma educação de qualidade
- quão bem associou as normas que lhe foram ensinadas
- com quem costuma se comunicar
- o quanto lê
- o que lê
- o quanto escreve
- o que escreve
Aí você pode dizer “ah, mas eu conheço uma pessoa que não frequentou a escola e escreve muito bem!”. Sim, há exceções. Mas via de regra, pelo modo como alguém se comunica dá pra “adivinhar” boa parte desses itens. E da mesma forma que as pessoas se identificam, elas perpetuam esses laços pela língua.
Da mesma forma que uma pessoa que só troca mensagens instantâneas com adolescentes usando gíria não costuma ter interesse pelo que um acadêmico diz, aqueles que tiveram uma experiência acadêmica, de leitura e de escrita que os levou a dominar o português culto não costumam se interessar por quem não chegou nem perto disso.
Isso é normal - geralmente nos interessamos por trocar ideias com quem tem um background parecido com o nosso. Seria lindo se as pessoas se dispusessem a ampliar seus horizontes e entender melhor a cabeça de quem não pensa tão parecido, mas diante de um mundo de escolhas, raros são os que se dispõem a fazer o mais desconfortável, o mais desafiador, o mais incômodo. Falar com diferentes exige não apenas tolerância pelo que eles pensam, mas resiliência para aceitar a rejeição que eles terão quando você revelar que não é dali – às vezes, simplesmente pela língua.
Isso constatado, poderíamos ir dormir tranquilos sabendo que o mundo é rico e que as pessoas se comunicam entre si, mesmo que só entre os mais parecidos. Mas não para por aí. Todos sabemos que existem consequências mais sérias para isso. As provas que selecionam quem vai estudar de graça em boas universidades privilegiam um grupo. Os concursos que preenchem as cadeiras em empregos públicos privilegiam um grupo. E se é esse grupo que é sempre escolhido para estudar nas melhores universidades e preencher os cargos públicos, qual é a perspectiva de que esse cenário mude?
Quais são as chances de que uma pessoa que não tem conversas com pessoas cultas escreva uma redação exemplar e possa frequentar uma boa universidade? Quais são as chances de que a clareza e a coerência sejam mais valorizadas do que a ortografia? Quais são as chances de que a língua expresse a cultura de um povo, e não apenas perpetue diferenças sociais?
São questões que podem ser desanimadoras se pensarmos apenas em grandes meios de comunicação. Desconfio, talvez de forma otimista demais, que a internet pode dar mais voz a questões como essa e promover a tolerância e a compreensão entre quem tem bases diferentes.
Desconfio, de forma mais otimista ainda, que as pessoas conscientizadas podem começar a trocar: ensinar a língua culta aos que querem se comunicar com quem a domina e também passar a entender quem escreve diferente antes de automaticamente condenar.
Desconfio e torço para que sejamos menos reprodutores dos padrões sociais e mais preocupados com quem compõe a sociedade.