sexta-feira, 27 de julho de 2018

Ninguém deveria trabalhar só por paixão


Paixão não remunerada mata de fome. Se não você, que tem alguém te sustentando em casa pra fazer trabalho voluntário, mata o outro, que estudou pra fazer a mesma coisa e não consegue achar quem pague, porque tem gente fazendo de graça.
Estamos cada vez mais acostumados ao entretenimento exploratório. Assisto, depois decido se pago; consumo, critico e decido se vale minha moeda. Isso quando não me encho de shows, exposições, filmes e peças de teatro e depois chamo de vagabundo quem estuda artes; consumo conteúdo cultural de graça, critico quem não tem o mesmo repertório e apoio corte de verbas para a cultura.
Milhões de artistas acham que se fizerem as coisas de graça um dia vão ser reconhecidos; que se derem algumas demonstrações, vai chegar o dia em que vão ser bem pagos. Só que o mundo da arte, assim como muitos, depende muito de quem são seus contatos, mais do que como é o seu talento.
Quem trabalha de graça “por paixão” destrói a própria categoria. Quem tem um pouquinho de visão sistêmica e amor pelo que faz, se mobiliza para valorizar a própria atividade e fazer com que os outros também valorizem.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Clientes monstros


Todo mundo tem clientes monstros. O que muita gente não sabe é que o monstro está mais na sua cabeça do que no cliente. Explico: quando precisamos entregar um produto ou serviço a alguém, é grande a chance de ficarmos intimidados. “Será que o cliente vai gostar?” “Será que vai falar mal de mim?” “Será que era isso mesmo que ele queria?” A falta de respostas claras a essas dúvidas pode fazer com que desenhemos um monstro na nossa cabeça e comecemos a brigar com ele sem nem saber se ele é real. Dica para lutar contra ele? Pergunte.
Antes de assumir que o cliente tem que gostar do que você está fazendo, pergunte se é isso mesmo que ele gostaria. “Ah, mas eu estou fazendo um relatório súper bem detalhado, com ótimas ideias que ele tem que entender!”. Tem mesmo? Se a ideia do seu cliente é ler diversos relatórios no período de meia hora para ter uma noção geral de tudo o que se passa em diferentes setores, um relatório detalhado demais não vai ser satisfatório e você vai se sentir frustrado por ter se esforçado tanto nisso. Uma simples pergunta pode resolver, como “você precisa de um relatório detalhado ou de uma visão geral?” E se a resposta não for a que você queria, tente entender que cada um tem as suas necessidades. De qualquer jeito, é sempre melhor perguntar antes de se frustrar.
“Ah, mas eu perguntei se não seria melhor contratarmos a empresa mais barata e ele concordou.” Aqui entra a completude da pergunta. Ao falar com o cliente você mostrou para ele tudo o que estava em jogo para a decisão ou só o que você achava importante? Falar sobre o preço das empresas é relevante, mas se a tal empresa mais barata tem alta rejeição de resultados, é importante também destacar isso. Se é o cliente quem está decidindo, dê elementos para que ele decida. Uma boa forma de consultá-lo, nesse caso, seria: “A empresa X é a maia barata de todas, no entanto ela tem alto índice de rejeição. A empresa Y é melhor avaliada, mas é mais cara.” Pronto. Você deu as informações que tinha e deixou que ele assuma a responsabilidade pelos riscos da decisão que decidiu tomar.
Algo que todo mundo sabe desde criancinha, mas de vez em quando esquece: educação. Em um mundo de redes sociais, fóruns e debates acalorados, todo mundo sabe como passar uma indireta ou dar uma cutucada com o tom da frase, as palavras colocadas no meio dela, os adjetivos. Mesmo os e-mails mais polidos podem ser ofensivos, se não soubermos usar o tom adequado. Pergunte-se: vale a pena comprar uma briga no seu trabalho quando você poderia simplesmente ser produtivo e ir para a casa com sensação de dever cumprido? Em nome de quê? Se for só do seu ego, talvez seja melhor procurar uma terapia, do que sarna pra se coçar.
“Ah, mas ele me mandou um e-mail provocativo”. Sim, isso acontece muito. A questão é se vale a pena dar sequência a um ciclo de provocações ou tentar ser melhor do que isso e transformar a comunicação em algo civilizado e saudável para o psicológico de todo mundo. Às vezes vale mesmo a pena deixar os e-mails de lado e tentar melhorar o clima com o cliente pessoalmente ou por telefone, com sincera intenção de harmonizar a relação. Mas tente ser sincero quanto à forma como você está se sentindo, mais do que apontar problemas no que o outro fez. Diga “eu fiquei preocupado com as coisas que você disse” em vez de “você não deveria ter escrito aquilo”. Tente mostrar como é importante, para você, ter uma interação madura.
Maturidade é um remédio que demora pra funcionar, mas pode matar muitos monstros.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Democratização x banalização


O problema de um monte de gente publicar na internet artigos didáticos sobre aquilo que não entende direito não é nem estudar errado. Quando a gente realmente estuda um assunto, a gente percebe os charlatões e foge de alguns sites. O que eu estou notando, no entanto, é que muitos selecionadores de empresas e de concursos não percebem. Pescam assuntos em páginas quaisquer e usam para fazer processo seletivo de má qualidade. Nunca antes tive que abrir tantos recursos de concurso por questões mal feitas ou escancaradamente erradas, que parecem ser fruto de colagens de sites de má qualidade. Imagino quantos processos seletivos descartam bons profissionais porque o próprio recrutamento não é feito com cuidado. 


domingo, 18 de fevereiro de 2018

Passaporte especial

A leitura pode ser um hábito, pode ser uma obrigação ou pode ser um jeito de fugir por alguns instantes para uma realidade paralela. Nas ficções, a gente mergulha no tempo do autor, acredita nas descrições que ele faz e de repente está rodeado por lugares, pessoas e coisas que não existem no nosso dia a dia.  Ao ler artigos acadêmicos, não é difícil começar a discutir mentalmente com o autor, discordando, aplaudindo ou apenas reconhecendo a beleza do raciocínio feito. Em biografias, temos a oportunidade de conhecer alguém, de assistir suas vivências e de acompanhar o impacto dos acontecimentos sobre sua vida e seus pensamentos. De um jeito ou de outro, bons livros nos tiram do momento presente para colocar em contato com outra realidade, que pode apenas nos divertir ou também impactar o mundo em que vivemos.
Toda essa riqueza, no entanto, tem um portal: saber ler. Não apenas espiar as manchetes de notícias ou artigos de internet, mas desafiar-se a ler uma escrita muitas vezes ultrapassada, muitas vezes mais rebuscada do que mastigada para o público. Quem se lembra das aulas de interpretação de texto sabe do que eu estou falando. Nesses exercícios, abrimos mão da interpretação livre para tentar decifrar o que o autor está querendo expor. Nesses exercícios nos tornamos capazes de atravessar uma ponte entre o nosso ponto de vista e o do outro, mesmo que esse outro esteja distante ou mesmo morto.
A leitura de autores como Bourdieu, Guimarães Rosa ou mesmo Machado de Assis pode ser uma verdadeira tortura para quem não se propõe a encarar diferentes estilos. Se por preguiça de aprender a ler bem deixarmos de ler esses autores, fechamos as portas para mundos que têm muito a oferecer. E o fato é que só aprendemos bem uma língua que usamos. Assim, por mais que tenhamos licença para usar uma linguagem preguiçosa em diversos momentos, se nos entregarmos exclusivamente a ela podemos nos afastar totalmente de universos mais complexos, que exigem um pouco mais, mas que guardam belezas ausentes alhures.
Quando negamos o desenvolvimento dessa habilidade, ficamos restritos à mediocridade cotidiana, apenas àquilo a que a linguagem simples satisfaz, ao lugar-comum. O uso das letras como mera extensão do mundo vivido, do mundo corrido sem beleza poética ou reflexão crítica é útil, porque é rápido e serve a propósitos simples. Mas quem quer ir além do mundo concreto, quem quer viajar em outros cenários, discutir com grandes mentes e permitir que os neurônios respirem um ar diferente de vez em quando tem que aprender a percorrer os caminhos que levam a outras realidades.

É possível viajar o mundo com um passaporte comum, tempo e dinheiro suficientes. É possível viajar muitos mundos aprendendo a ler diferentes linguagens. 

segunda-feira, 3 de julho de 2017

As múltiplas relações de um escritor

Você já parou pra pensar quanto tempo um escritor levou para escrever um livro que você levou semanas para ler? Alguns levam meses, outros anos mexendo e remexendo no mesmo livro. Geralmente, um escritor ainda precisa lapidar, revisar, reescrever o que não ficou tão bom assim… Ou seja: ele não só passou muito tempo lidando com o mesmo texto, como ele passou muito tempo lidando com uma versão pior do que a que foi publicada.
Muitos leitores e especialmente escritores têm a impressão de que para poder falar que o livro é bom, o autor precisa amar profundamente todas as personagens, admirando suas qualidades e defeitos e jamais se enjoar delas – o que é uma ilusão.
Tem personagens que eu adoro, como se fossem pessoas vivas, minhas conhecidas. Isso não quer dizer que eu sempre tenha paciência com elas ou que queira vê-las todo dia. Às vezes preciso me afastar um pouquinho, dar um tempo na relação para que não fique um relacionamento excessivo. E às vezes eu canso delas também, tenho preguiça de voltar a escrever a sua história porque simplesmente eu lidei mais com elas do que gostaria.
Isso quer dizer que o livro ou as personagens são ruins? De jeito nenhum! Algumas coisas são lindas, mas não tanto a ponto de serem idolatradas todos os dias. Por fim, acontece muito o fenômeno oposto ao do autor que quer se promover sem fim e alega idolatrar todos os dias o próprio livro: o da rejeição. Eu já passei por isso e conheço outros que passaram: justamente por achar que um autor deve adorar tanto o próprio livro a ponto de nunca se cansar dele, muitos autores, quando se cansam, acham que o livro está ruim e o abandonam como uma obra mal feita.

Quer uma dica? Se você escreveu, lapidou, se dedicou e chegou, em algum momento a amar o trabalho que fez, não exija tanto do resultado final. Tem uma hora que a gente tem que deixar o julgamento aos leitores. 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Como receber críticas

Eu não gosto de receber críticas. Acho importante, mas não sou masoquista. É muito mais gostoso receber elogios exagerados do que críticas sinceras. Se fosse fazer uma metáfora, seria como comer verduras em vez de encher a cara de brigadeiro. A primeira opção não é a mais agradável, mas é a que te faz mais bem, a longo prazo.
 Para enfrentar essa difícil tarefa, no entanto, existem algumas astúcias. Primeiro, procurar quem vai fazer uma boa crítica. Uma boa crítica, a meu ver, aponta o que precisa ser apontado sem ofender. Escancara para você tudo o que precisa ser mudado no seu trabalho, mas jamais conta suas faltas para os seus amigos em conversas de corredor. Um bom crítico respeita e tem coragem para ser sincero.
Outra astúcia é perceber o nível da crítica. Se você escreveu um texto e as críticas vão desde o nível mais básico, como gramática, clareza ou coesão do texto, tem que ter humildade e estudar mais português. Se as críticas estão no conteúdo, na linha de raciocínio e em aspectos mais literários, veja o lado bom da coisa: escrever você já sabe, só precisa aprimorar a técnica para se tornar um bom escritor.
Não acho que nenhuma crítica deva ser ignorada, mas devemos analisar o tipo de crítica e decidir como nos posicionar diante dela. Tem crítica que é senso comum, técnica, dica publicitária. Tem crítica que tem mais a ver com o posicionamento pessoal de quem criticou. Se eu escrever uma história com personagens homossexuais e meu crítico achar que eu devo tirar isso porque vai contra os valores conservadores, que importância eu vou dar? A importância de saber que meu texto incomoda homofóbicos, o que não é um ponto negativo só porque o meu leitor achou que era.

Por fim, é preciso aprender a lidar com sentimentos. Depois de receber críticas, mesmo que sejam muito bem fundamentadas, pode bater um desânimo e você começar a achar que não nasceu pra isso. Eu acho que todo mundo nasceu pra crescer e aprender. Saber dar um tempo, olhar o texto depois pra reescrever e mesmo dar-se conta de quanta coisa boa recebe críticas pode ajudar a lidar com esse baque inicial. Não acho que ninguém deveria desistir por ele, mas aprender a lidar e seguir em frente. 

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

O sol de Marselha

Depois de publicar duas vezes por editora, resolvi me aventurar na autopublicação.
O livro não tem versão impressa, mas é fácil de adquirir e de ler em computador, kindle, tablet ou outras plataformas.
A principal razão: é mais barato, para mim e para o leitor.
Sei que por trás da publicação em editora tem muito trabalho que precisa ser pago, e que por isso o livro sai mais caro, tendo também custo, mesmo que reduzido, ao autor. Não desprezo a importância do trabalho que é feito. Mas a verdade é que eu não tenho condições de ficar pagando para publicar. O pouco retorno que tenho com os livros ainda tem que ser discutido com a editora quando ela “esquece” de pagar os royalties. Isso antes do livro ser pirateado e distribuído gratuitamente, como também aconteceu.
Então é isso. Livro novo, dessa vez direto na Amazon, sobre as minhas experiências na França:



quinta-feira, 23 de junho de 2016

Novo Livro

É com muito orgulho que compartilho a publicação do meu mais recente livro: Minha empresa precisa incluir. E agora?
O livro aborda as principais dúvidas que surgem quando uma equipe de recursos humanos se vê diante do desafio de contratar pessoas com deficiência. Diante do novo, nada melhor do que um pouco mais de conhecimento para perceber que todos podem se beneficiar desse processo.



O livro está disponível em duas páginas:
A da editora, em que o preço é mais vantajoso, mas exige uma busca por título ou autor até encontrar o livro: www.biblioteca24horas.com.br
A da Amazon, cujo link posso compartilhar diretamente, mas que tem preço mais alto e apenas a versão impressa: https://www.amazon.com/Minha-empresa-precisa-incluir-agora/dp/8541610292/ref=sr_1_3?ie=UTF8&qid=1465977732&sr=8-3&keywords=minha+empresa


quarta-feira, 25 de maio de 2016

O que inspira

Há algum tempo achava a inspiração arredia, impossível de ser convocada. Desde alguns acontecimentos na minha vida, no entanto, descobri algo que me inspira: novidade.  Um livro novo, uma viagem, uma experiência nova, um curso, algo que tire da rotina.
Odeio admitir, mas até novidades ruins me levam a escrever: uma decepção amorosa, uma tragédia, uma insônia melancólica provocada por reflexões incontornáveis. Em maior ou menor escala, as novidades atraem a inspiração.
Caso queira tentar, não precisa ficar esperando que o destino traga algo diferente. Vale a pena provocar também, buscar o que faz a mente sair um pouco do automático, fazer as coisas de um jeito diferente, inesperado. Sei lá, ser criativo.
O filósofo Roger-Pol Droit sugeria, para sair da rotina, correr em um cemitério, telefonar para si mesmo, beber e urinar ao mesmo tempo. Tem muita coisa que a gente pode fazer para que nosso dia seja diferente sem comprometer o que precisa ser igual.

Se não trouxer a inspiração, ainda assim pode ser bem divertido.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A leitura sempre adiada

Quando publiquei meu primeiro livro, muita gente que conheço mostrou entusiasmo, mas poucos o leram. Sabia que isso poderia acontecer, mas não dá pra negar uma certa decepção.
Em muitas ocasiões fiquei me perguntando porque as pessoas não o liam. Com a autocrítica ativada, achava sempre que o problema era eu: sou chata a ponto da pessoa achar que o livro será chato, a pessoa leu e parou, leu, mas não gostou... Enfim, diversas hipóteses autodepreciativas.
Um dia resolvi analisar um pouco mais o perfil de gente que lia e de gente que não não lia e cheguei a uma constatação que não me deixou muito mais feliz: muitas pessoas não leem. Nada. Nem livros, nem revistas, nem jornais, nem artigos de internet. Muitas das pessoas que se mostraram entusiasmadas para ler meu livro e nunca leram são as mesmas que comentam a manchete sem ler a notícia, que vivem dizendo “não li o texto todo, mas acho...” Na maioria dos casos, o problema não era eu.

Meu ego ficou mais tranquilo, mas meu otimismo não.

quarta-feira, 25 de março de 2015

O escritor é importante para a leitura?


Li outro dia uma notícia sobre a manifestação de escritores no salão do livro de Paris com o slogan “sem autores, sem leitores” e fiquei pensando a respeito. Será mesmo que se os escritores contemporâneos deixarem de escrever não haverá mais o que ler?
Por mais que seja bacana ter novas obras no mercado, já foi escrito tanto ao longo dos séculos, que se os escritores deixarem de publicar hoje, ainda terá muita coisa para ler.
Assim, me pergunto: como fazer para o ofício de escritor ser valorizado, se os seus produtos não se perdem no tempo? Como valorizar os novos escritores em um mundo em que existem tantos outros, vivos ou mortos, que fazem a vez quando algum abandona o barco?

sábado, 14 de março de 2015

Mas afinal, o que é falar bem?

A pergunta, assim feita, dá margem a muitas interpretações.
Se uma pessoa sobe no palanque e faz a plateia aplaudir, podemos dizer que ela fala bem. Nesse caso, ela convence, envolve, é carismática. Não importa se usou português culto, não importa nem se foi 100% coerente ou lógica.
Já em uma conferência acadêmica, ser carismático não sustenta uma tese mal construída. Respeitar o método científico e ter cuidado com afirmações mal embasadas é um jeito de falar bem nessa situação. A diferença entre um exemplo e outro é o objetivo, o público, o sentido da comunicação.
Isso também se aplica à escrita. Mas mesmo que o objetivo da escrita seja a transmissão de ideias, quando se pergunta se alguém escreve bem, geralmente vamos encontrar uma resposta um tanto limitada: escrever corretamente.
É verdade que saber usar a norma culta ajuda a dar clareza e compreensão ao texto. Mas não é exatamente ela que faz com que um texto seja bom. Depende muito dos argumentos, do estilo da escrita e – por que não – do público a quem ela é destinada. Então por que toda essa importância atribuída à norma culta?
Não sou linguista, mas ensaio uma resposta: o domínio de um sistema e o hábito linguístico de alguém sinalizam algumas coisas dentro de uma cultura. Pelo jeito que alguém escreve e, em uma escala menor, pelo jeito que alguém fala, identifica-se:
- se a pessoa frequentou a escola
- se teve uma educação de qualidade
- quão bem associou as normas que lhe foram ensinadas
- com quem costuma se comunicar
- o quanto lê
- o que lê
- o quanto escreve
- o que escreve
Aí você pode dizer “ah, mas eu conheço uma pessoa que não frequentou a escola e escreve muito bem!”. Sim, há exceções. Mas via de regra, pelo modo como alguém se comunica dá pra “adivinhar” boa parte desses itens. E da mesma forma que as pessoas se identificam, elas perpetuam esses laços pela língua.
Da mesma forma que uma pessoa que só troca mensagens instantâneas com adolescentes usando gíria não costuma ter interesse pelo que um acadêmico diz, aqueles que tiveram uma experiência acadêmica, de leitura e de escrita que os levou a dominar o português culto não costumam se interessar por quem não chegou nem perto disso.
Isso é normal - geralmente nos interessamos por trocar ideias com quem tem um background parecido com o nosso. Seria lindo se as pessoas se dispusessem a ampliar seus horizontes e entender melhor a cabeça de quem não pensa tão parecido, mas diante de um mundo de escolhas, raros são os que se dispõem a fazer o mais desconfortável, o mais desafiador, o mais incômodo. Falar com diferentes exige não apenas tolerância pelo que eles pensam, mas resiliência para aceitar a rejeição que eles terão quando você revelar que não é dali – às vezes, simplesmente pela língua.
Isso constatado, poderíamos ir dormir tranquilos sabendo que o mundo é rico e que as pessoas se comunicam entre si, mesmo que só entre os mais parecidos. Mas não para por aí. Todos sabemos que existem consequências mais sérias para isso. As provas que selecionam quem vai estudar de graça em boas universidades privilegiam um grupo. Os concursos que preenchem as cadeiras em empregos públicos privilegiam um grupo. E se é esse grupo que é sempre escolhido para estudar nas melhores universidades e preencher os cargos públicos, qual é a perspectiva de que esse cenário mude?
Quais são as chances de que uma pessoa que não tem conversas com pessoas cultas escreva uma redação exemplar e possa frequentar uma boa universidade? Quais são as chances de que a clareza e a coerência sejam mais valorizadas do que a ortografia? Quais são as chances de que a língua expresse a cultura de um povo, e não apenas perpetue diferenças sociais?
São questões que podem ser desanimadoras se pensarmos apenas em grandes meios de comunicação. Desconfio, talvez de forma otimista demais, que a internet pode dar mais voz a questões como essa e promover a tolerância e a compreensão entre quem tem bases diferentes.
Desconfio, de forma mais otimista ainda, que as pessoas conscientizadas podem começar a trocar: ensinar a língua culta aos que querem se comunicar com quem a domina e também passar a entender quem escreve diferente antes de automaticamente condenar.
Desconfio e torço para que sejamos menos reprodutores dos padrões sociais e mais preocupados com quem compõe a sociedade. 



quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Revisão de textos próprios

Revisão é um trabalho realizado, idealmente, por revisores. Há muitos aspectos técnicos e sacadas que os revisores se preparam para encarar enquanto desempenham a atividade. Mas alguns escritores têm conhecimento suficiente da língua para não precisar de um, especialmente se o texto em questão é algo mais simples, como um post de blog, um artigo simples ou um e-mail. Nesses casos, é importante não esquecer de fazer a revisão do próprio texto.

Por quê?
Porque você pode estar cansado ou distraído na hora de escrever e cometer erros bobos, que vão mudar o sentido da sua fala ou tirar credibilidade do texto.
Porque você pode ser vítima de preconceito linguístico e perder oportunidades importantes porque alguém despreza os erros que você cometeu.
Porque você pode estar expressando de forma muito complicada algo que pode ser transmitido de maneira mais simples.
Porque você colabora com uma linguagem mais padronizada e aumenta as chances de uma comunicação eficiente.

Como?
Quando escrevemos, temos alguns objetivos em mente: convencer, argumentar, descrever, explicar ou muitos outros. Enquanto estamos concentrados nesses objetivos, problemas na estrutura do texto podem passar despercebidos e não termos sucesso em criar um texto fluido.
É ideal que o processo de revisão seja feito quando essas reflexões já foram feitas. Assim, você pode focar sua atenção na forma, na parte ortográfica, sintática e em aspectos mais específicos da língua. Tente ler o texto como se fosse de outra pessoa. Às vezes funciona até colocar o texto em outro formato, com outra cor e imaginar que está abrindo o blog de alguém.
Quando uma palavra parecer estranha, consulte. Temos diversas fontes de conhecimento: dicionários, sites de português, fóruns. Aproveite isso e aprenda com as suas dúvidas. O máximo que pode acontecer é você confirmar que estava correto e ganhar um pouco mais de informação com isso.

Quando?
O ideal é que se dê um tempo depois de escrever o texto para fazer a revisão. É claro que tudo vai depender da complexidade do assunto, do tamanho do texto e do seu objetivo com ele.
Se for um e-mail simples, por exemplo, não há necessidade de deixar para o dia seguinte. Você pode dar uma lida rápida depois de escrevê-lo e enviar. É recomendável, no entanto, que no caso de e-mails escritos em momento de raiva, indignação ou qualquer outra dessas emoções que interferem muito na razão, deixe as emoções descansarem e releia o e-mail quando estiver mais calmo, pensando nas consequências de enviar o que escreveu.
Se for uma apresentação para proposta de emprego, pode valer a pena pedir que um colega leia e veja se está bom.
Em caso de textos acadêmicos, artigos e conteúdos de maior complexidade, pode ser uma boa ideia salvar o texto, ocupar-se com outras atividades e só quando sua mente já tiver descansada o suficiente entrar em contato com ele de novo.
Alguns revisores dão um intervalo de até 48 horas para rever um texto. Sabemos que o ritmo das necessidades pode apertar nossos tempos, mas é sempre bom tentar manter a qualidade do que fazemos.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Declaração




A verdade é que eu amo o português.
Entendo o inglês, todo viajado e famoso, flerto com o francês, todo sofisticado e charmoso, mas tem alguma coisa no português que me faz ficar acordada até mais tarde. Me faz querer continuar olhando, mexendo, esculpindo.
Ele faz com que eu me sinta em casa, ele me diz mais do que qualquer outro tenta dizer, ele me acompanhou nos momentos mais difíceis, desde o diário da infância até a noite de autógrafos na Bienal.
Ele é meu amor.

Respeito, convivo, preciso.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Tiro no pé


Tem um assunto espinhoso, sobre o qual muitos não gostam de pensar, mas que precisa ser falado e relembrado de vez em quando: o preço do trabalho freelance.

Sabemos que não é fácil encontrar boas propostas de trabalho pela internet. Especialmente quando não se está cara a cara, as pessoas têm coragem de pedir que se trabalhe quase de graça, e existem freelancers que se dispõem a isso. Por quê?

Provavelmente pensam que fazendo isso vão melhorar seu currículo e ter mais chances de conseguir bons trabalhos depois, que paguem melhor. Só tem um detalhe: quando eles fazem isso eles pioram o próprio mercado. 

Explicando: enquanto houver gente disposta a trabalhar quase de graça, as pessoas que contratam não vão querer pagar o valor devido ao trabalho. Então, cada vez que você se dispõe a trabalhar quase de graça, você passa um recado a todos os seus potenciais contratadores, presentes e futuros: é barato, não vale a pena oferecer mais. 

Isso é tão verdade que já vi gente com pós graduação cobrando dois reais por texto a ser revisado. Quando é que o cliente dessa pessoa vai começar a valorizar o trabalho de revisor? Nunca! Se o trabalho qualificado está assim barato, para que pagar mais, afinal? 

Agora imagine que o texto a ser revisado está cheio de problemas: estrutura, clareza, ortografia, sintaxe... Um bom revisor vai despender pelo menos uma hora nele. Vamos considerar a carga horária média de trabalho formal: 40 horas por semana, ou cerca de 160 horas por mês. 

Cobrando dois reais por texto, o revisor em questão está anunciando para toda a sua rede de contratadores que ele aceita ganhar R$320 por mês para trabalhar em tempo integral. Ou seja, menos de metade do salário mínimo para uma pessoa com pós graduação fazer um trabalho especializado.

E o recado que esse profissional passa para os colegas de profissão é: você pode estudar, você pode amar a língua portuguesa, você pode ser um profissional dedicado. Comigo como concorrente, compensa seguir qualquer outra carreira. Nunca vão pagar bem pela nossa. 

Eu não considero meu trabalho caro. Eu cobro o preço que eu acho que vale. Dependendo do acordo feito, até menos do que eu acho. Mas nunca eu vou ter vergonha ou medo de apresentar uma proposta que o cliente ache muito cara, porque a tendência de muitos clientes é achar que o trabalho de freelance não vale nada, graças ao que consegue encontrar. 

No que depender de mim, sempre que houver uma concorrência, o preço justo será apresentado. Já perdi e sei que perderei muitas concorrências com isso, mas não vou jogar no lixo nem o meu nem o trabalho dos meus caros colegas. É mais do que dinheiro. São princípios. 

sábado, 22 de novembro de 2014

Top mil


No início do ano decidi sair do meu emprego e me lançar a fazer trabalhos freelance.
No conforto do lar, sem pegar trânsito ou me estressar com políticas corporativas, comecei a buscar trabalhos, melhorar meu perfil e estudar sobre esse mundo novo. Passei muito tempo me dedicando muito mais do que recebendo de volta. Uma das coisas que eu aprendi é que nesse mundo tem uma galera que trabalha praticamente de graça só para conseguir clientes.
Em geral, a qualidade é duvidosa e você vê o cliente procurando outra pessoa depois, para refazer o trabalho mal feito. Mas tem gente boa que trabalha por migalhas também. Enfim, a concorrência é grande, mas ainda não posso dizer que me arrependo. Aprendi a valorizar minha sanidade mais do que dinheiro.
Faz nove meses que comecei essa empreitada. Consegui trabalhos a partir de amigos que me conhecem e confiam na minha competência, outros responderam a anúncios afixados em pontos de ônibus da USP (sim, alguns dos milhares de papeis são meus) e com outros eu fiz negócio por meio de plataformas online. O blog ficou um pouco abandonado, mas minha página no facebook ganha pouco a pouco mais seguidores. 
Assim, minha pequena base de clientes ficou espalhada. Consegui um acordo para ser a tradutora de uma empresa sempre que precisasse de tradução e essa semana tive uma grata surpresa: entrei nos TOP 1000 da Workana, uma das plataformas de Freelance que eu uso (a que eu mais gosto).
Fiz poucas coisas lá, justamente porque prezo pela qualidade. Se o trabalho não paga de forma justa, se não acho que conseguirei cumprir prazo ou se o assunto me é muito estranho não pego, pronto. Quero manter a qualidade do que eu faço independente de não ter muitos clientes. E isso me levou a essa satisfação. TOP 1000 pode parecer pouco, mas a plataforma conta hoje com mais de 170.000 profissionais inscritos, então isso, para mim, é bastante.
O mais interessante, no entanto, não é atingir o resultado. É como eu cheguei a ele. Não conheço o chefe, não entrei em esquema, não usei maquiagem ou fiz charme para ninguém. Não foi jeitinho, favor ou chantagem. Foi o meu trabalho. Disso, por menos dinheiro que me dê, vou me orgulhar sempre.





segunda-feira, 12 de maio de 2014

Olá!


Bem vindos a bordo!

Tradução, revisão, redação e assuntos que acabam escapando pelos dedos para quem sabe encontrar os olhos de leitores cibernéticos ávidos pelo mundo textual. 

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Leia, pense, discuta, opine e sinta-se à vontade!